Não que eu estivesse atrasado, porém se esperasse por mais alguns minutos certamente ficaria.
Ajeitei a mochila sobre o ombro e apertei novamente o botão do elevador mas, por mais que ouvisse os cabos se movendo e o motor funcionando, nunca chegava até o meu andar.
Eram apenas três andares. Preferi usar as escadas.
Abri a porta do corredor que conduzia ao primeiro lance e o sensor de movimento imediatamente acendeu a luz, revelando o caminho até uma porta no lado oposto, que dava na outra metade do andar.
Hesitei por alguns momentos, de ouvido em pé, para ver se o elevador já estava chegando. Apenas o som do motor continuou ecoando pelo fosso que atravessava os andares, mas nem sinal dele chegar.
Então entrei e fechei a porta atrás de mim, bem no momento que ouvi um "clique" e o sensor apagou a luz. O tempo de espera não era muito longo.
A escuridão caiu maciça à minha volta, negra e quase sufocante. Um indício de claustrofobia me fez agitar os braços ansiosamente, me sentindo um idiota assim que a luz tornou a acender.
Achei melhor me apressar. Se a luz do andar acima apagasse antes que eu chegasse no perímetro do sensor abaixo, poderia acabar rolando alguns degraus com aquela escuridão tão intensa.
Cada andar era separado por três lances de seis a sete degraus, virando sempre à direita. Desci o primeiro e dei de cara com a escuridão do segundo andar invadindo o segundo lance de escada. Senti um leve arrepio e comecei a descer mais rápido, preocupado com a hora que a luz acima apagasse.
A luz abaixo levou um segundo a mais para acender, quando atingi o último degrau do terceiro lance. No instante seguinte ouvi o "clique" da luz acima se apagando.
"Melhor descer um pouco mais rápido", pensei. Como da outra vez o lance do meio estava escuro até a metade. Acelerei o passo, começando a ficar mais nervoso do que imaginei que ficaria.
Curiosamente, dessa vez a luz superior apagou antes que eu terminasse o terceiro lance e a escuridão o envolveu por dois segundos.
Nesses dois segundos senti algo que me apavorou: algo me espreitava através da escuridão. Podia sentir e quase ouvia sua respiração. A luz superior continuava apagada.
A luz do andar que eu estava acendeu. Não havia ninguém.
Agora comecei a descer as escadas correndo, sentindo um suor frio escorrer pela minhas costas. Não fazia sentido algum, mas quanto mais rápido eu ia, mais rápido as luzes apagavam e mais tempo demoravam a acender.
Já não fazia ideia de em qual andar eu me encontrava, nem quantos lances ainda haveria de descer, mas a presença que me perseguia era uma certeza constante e cada vez mais próxima. Ouvia passos, mas não conseguia identificar se eram os meus que ecoavam escada acima.
Tropecei e deixei a mochila cair. Ouvi o "clique" da luz superior apagando e nada da próxima luz acender. Abaixei-me e tateeio chão atrás da mochila, notando que por mais ruidosa que minha respiração estivesse, não encobria o pavor de sentir que algo se aproximava inexorável e lentamente pelas minhas costas, como se tivesse a certeza de que me alcançaria por mais que eu corresse.
A luz acendeu e vi o "T" pintado na parede. Finalmente o térreo. Peguei a mochila a tempo de sentir um leve movimento cálido em minha nuca.
Corri em direção à porta de saída sem coragem de checar se tinha mesmo alguém atrás de mim e quanto mais corria, mais longe a porta ficava. Me desesperei. Algo escorreu pelo meu rosto. Poderia ser suor ou lágrimas, mas não lembrava de ter começado a chorar. Faltava pouco e estendi a mão para segurar a maçaneta. Um último impulso e soltei um gemido que foi quase um grito de terror. Se demorasse mais um segundo para alcançar a maçaneta a luz poderia…
"Clique."


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