Domingo, 23 de agosto..
Acordei no meio da madrugada. Sentia uma grande vontade de ir ao banheiro. Fazia frio naquela noite, e foi difícil se levantar da cama quentinha para o ar do quarto gelado. Assim que pisei no chão frio amaldiçoei a hora em que inventei de levantar, ir ao banheiro e beber água antes de se deitar.
A escuridão do quarto só era quebrada pela fraca luz vermelha do visor do rádio-relógio, em números garrafais: “3:15”. Pensei em qualquer coisa desagradável, mas logo fiz questão de esquecer. A meta era ir ao banheiro, beber agua e logo voltar para a cama.
Abri a porta, que rangeu baixinho. Fora do quarto, a cozinha também estava fracamente iluminada, mas pela luz da lua cheia que entrava pálida pela janela. Ao longe, ouvia sons esporádicos de carros notívagos na avenida, além do zumbido elétrico da geladeira e do tique-taque monótono do relógio na parede, também mostrando os mesmos três e quinze, quase imperceptíveis na penumbra.
Meus olhos ardiam de sono e, enquanto eu caminhava na direção do banheiro, ouvi um outro som, murmurando, vindo da parede. Um som leve, uma voz humana, mas não se distinguia o que era exatamente.
Parei no meio do caminho para o banheiro do pequeno apartamento. Surgiu, de imediato, a curiosidade: “Que seria isto?”, perguntei a mim mesmo.Mudei de direção, no rumo da parede. Encostei o ouvido na gelada parede. Veio, em minha mente, como um longínquo devaneio, a imagem de minha mãe me dizendo que era muito feio bisbilhotar, moralismo este logo sufocado pela autojustificação de certificar que nada de mau ocorria no apartamento da vizinha.
Lamúrias indistintas vinham de dentro da parede. Um choro de viúva, típico de velório, corria pelos frágeis tijolos até meu ouvido. Eu sabia pouco sobre a velha do 54, tampouco seu nome. Só sabia que morava sozinha, e demonstrava hábitos ultrapassados sempre seguidos de uma simpatia senil que me incomodava. Sempre que podia, eu fugia dela, mas não podia evitar os encontros nos corredores e locais públicos do condomínio. Não sabia bem o porquê, mas eu evitava a velha. Devia ser choque geracional, explicava rapidamente para mim mesmo.
Tomei um susto. Enquanto refletia sobre a velhinha e o que poderia ser aquilo, o choro que estava baixo e distante subitamente ficou mais alto, como se a velha saltasse para perto da parede exatamente do outro lado em que eu me encontrava bisbilhotando. Num soluço de medo, me afastei da parede.
- “Mas... Que estranho...” – o choro pareceu ganhar ressonância ao seu redor. Vinha de todo lugar, ecoava nas paredes do apartamento, quase que num efeito de sala de cinema. A sua consciência, personalizada pela imagem da mãe, surgiu instantaneamente em sua mente, culpando-a das consequências de sua curiosidade. “Fui pego? Não... Não pode ser possível, deve ser coisa da minha cabeça”. Tapei os ouvidos. Silêncio. Não estava em minha cabeça. Soltei as mãos devagar da cabeça, e o chorinho parecia mais desesperado agora, como se a viúva fosse se lembrando da dor de sua perda, ao lado do caixão do falecido. Vinha de todos os lados. E era real.
A geladeira desligou num estalo. Olhei em sua direção e quase cai de costas no que vi: uma sombria presença, esguia e de forma humana estava imóvel, voltada para mim, do lado da geladeira.
Soltei um soluço abafado e senti fraquejar um pouco, mas o instinto de sobrevivência me impulsionou para a porta do apartamento. Grunhia desesperado não querendo olhar para trás, de onde vinha um som parecido ao de rastejar de folhas, junto com o choro – agora convulsionado. As chaves escorregavam em meus dedos suados, os dentes pressionados, uma pontada na barriga. Não podia ser, aquilo não podia ser real... “Meu Deus, o que eu fiz?”. O frio aumentou em minha nuca, uma presença pesada, mortal e agressiva parecia avizinhar-se sorrateira.
Abri a porta e me joguei para fora. Acendi a luz do corredor e tranquei a porta num estrondo, desesperado. Corri de costas pelo corredor. Bati na parede do lado da escada e me deixei escorregar até sentar no chão macio... A sensação de ter escapado do perigo abrandou levemente o pânico, me permitindo tremer e começar a lacrimejar. "Não, na minha casa não, isso não era possível... Isso não existia, era coisa de louco... Estou ficando louco? ...”
Um estalido. Um rangido. Respirei fundo quando viu a velha sair do 54, rosto lívido, me observando. Um sorriso enrugado apareceu no rosto da velhinha:
– O que aconteceu ? Precisa de ajuda?
- N... N... Não... Está tudo bem, eu só tomei um susto em casa, mas não é nada de mais.
– Não faz bem alguém tão jovem com uma cara assim, apavorado. Entre em casa, tenho um chazinho de camomila que vai te acalmar.
“Não... Não seja idiota, cara, é uma armadilha. Ela sabe de tudo, ela vai te ferrar. Ela fez isso. Ela é uma BRUXA!” – pensei – “Não... Não seja idiota mesmo, isso não existe... Você está com sono e viu coisas, ouviu coisas... Nada mais” – pensei de novo.
– Quer ajuda para se levantar?
Me acalmei um pouco mais e comecei a me sentir patético. Isso não existe. Não, isso tem explicação... Já precisei ir a psicólogo antes, já tomei até remédio... Deve ser coisa da minha mente. Me levantei e aceitei o convite da velha.
O 54, assim que adentrado, cheirava a coisas velhas. A luz forte da cozinha e a aparência de normalidade da residência me deixou ainda mais tranquilizado e convencido de que estava delirando. Uma tolo. Só isso que podia ser. Que papelão... Assustar uma velha senhora àquela hora da madrugada...
– Sente-se. Já volto com o chá.
Sentei-me numa poltrona verde amaciada pelo uso e pelo tempo. Afundei no assento. Juntei as mãos pálidas e geladas por entre as pernas num gesto pueril de aquecimento, e me lembrei de que queria muito fazer xixi.
Foi quando um cheiro estranho correu o ar... Não era camomila. Era um cheiro repugnante, podre. Carne podre. O medo retornou, e o silêncio pesou no ambiente. De repente, tive a sensação de ter sido abandonado na companhia de um predador. Um grunhido... Vindo de trás. Virei-me muito rápido para ver o que era, mas a consciência me esvaiu por um segundo como num ligeiro apagão. Recobrando-a, estava sentado num dos pufs gelados que as vezes ficam na cozinha de meu apartamento. O tique-taque do relógio de parede vinha acompanhado do mesmo choro. Do outro lado da cozinha, no corredor que leva aos quartos, uma velha chorava de costas para mim. Tive a mesma sensação que um condenado à morte deve ter no último momento e resignei-me de sua situação, como presa paralisada. Nada mais fazia diferença e sequer reagi quando me senti engolfado por uma presença traiçoeira, que atacava pelas costas, abraçando-me geladamente... Pouco antes de ser tomada pela escuridão, a velha começava a voltar-se para mim, com vibrantes olhos vermelhos.
Era a Velha do 54.